A conversa com Sarah Afonso começa mesmo antes de a entrevistar, "acho que os jovens deviam falar de Almada". Foi com esta frase que a pintora me recebeu, encaminhando-me para a sala de estar, que eu bem conhecia do tempo em que Almada era vivo. Parou um pouco apoiando-se na bengala, e disse com um sorriso triste: "parece-me mal não falarem de Almada!
Passam-se semanas, meses que não se fala do Almada. É um homem do passado..., mas ontem falou-se de Almada! Ele à noite saiu de casa e foi tirar fotografias. Uma fotografia a um retrato. E isso emocionou as pessoas porque todos julgaram que era o Almada que voltava! Vinha fazer fotografias...Afinal não era um facto, a sua morte... Morreu e voltara tempos depois para tirar fotografias... O que é um absurdo!"
Neste quase deambular emotivo de imagens confusas do passado, como que ilustrações surrealistas de uma memória dessíncrona do tempo real, Sarah Affonso fez uma curta viagem a momentos gravados num tempo de sonho, em que a sua realidade foi a presença de Almada, vivo, activo, polémico e diferente, como tudo o que protagonizou em vida.
-Há quem diga, tenha escrito, que Sarah Afonso foi prejudicada na sua vida artística por ter casado com Almada-Negreiros.
-Penso que é verdade. Eu sujeitei-me porque admirava muito Almada. Se fosse por outro homem qualquer, penso que não! Mas, pelo Almada, achava bem, achava natural.
Sabe, às vezes dizia eu para mim: "Bem,vou acabar este quadro". E regressava à pintura, ao trabalho de pintar. Logo a seguir desanimava! Tinha muitos desânimos.E pensava, também, que a minha carreira havia terminado!
O Almada pintava e desenhava muito bem. Uma vez, numa exposição de desenhos do Zé [José de Almada-Negreiros ] , havia um retrato meu, a lápis leve, muito bonito. O meu filho disse-me, "ó mãe, este é um retrato para a família! É tão parecido com a mãe, tão bonito, que é o nosso retrato de família!" O filho também admirava muito o pai!
Se o Almada era um grande pintor e desenhador, para quê eu ...?
-Há quem diga, tenha escrito, que Sarah Afonso foi prejudicada na sua vida artística por ter casado com Almada-Negreiros.
-Penso que é verdade. Eu sujeitei-me porque admirava muito Almada. Se fosse por outro homem qualquer, penso que não! Mas, pelo Almada, achava bem, achava natural.
Sabe, às vezes dizia eu para mim: "Bem,vou acabar este quadro". E regressava à pintura, ao trabalho de pintar. Logo a seguir desanimava! Tinha muitos desânimos.E pensava, também, que a minha carreira havia terminado!
O Almada pintava e desenhava muito bem. Uma vez, numa exposição de desenhos do Zé [José de Almada-Negreiros ] , havia um retrato meu, a lápis leve, muito bonito. O meu filho disse-me, "ó mãe, este é um retrato para a família! É tão parecido com a mãe, tão bonito, que é o nosso retrato de família!" O filho também admirava muito o pai!
Se o Almada era um grande pintor e desenhador, para quê eu ...?
Decididamente, Sarah Affonso não parece interessada na sua vida pessoal como artista, ou mesmo, em algumas facetas privadas do seu casamento com Mestre Almada-Negreiros.Não está, entretanto, explicado o que levou uma mulher como Sarah Affonso a interromper, em determinado período da vida, a actividade como pintora e desenhadora, que exerceu com talento reconhecido, e num tempo em que o "reinado dos talentos" era, provincianismo, exclusivo dos homens.
-Como foi o seu relacionamento com Almada-Negreiros?
-Em família dávamos bem. Era muito caseiro.
Não era difícil lidar-se com Almada...Falava muitas vezes sozinho, como se mais ninguém existisse. Os outros não existiam! Falava para si próprio...
-No caso particular de uma Sarah Afonso pintora, como reagia Almada?
-O Almada sempre se interessou pela minha pintura. E queria que eu pintasse.
Então porque desistiu de pintar?
-Sinto-me muito cansada e desisti de pintar. Depois que o Zé morreu, voltei a trabahar muito. Fiquei com uma obsessão de fazer desenhos, que nem sei explicar.. Sentia-me realmente doente. Mesmo assim, queria desenhar muito. Mas com o Almada vivo, não tinha disposição, não queria desenhar.... Um dia perguntaram-me "porque fazia desenhos": eu fazia desenhos como procura de uma verdade. Pintando retratos, além de ter mais trabalho e de ser mais moroso, obrigava-me a estudar muito! Ora eu nem sempre podia dedicar todo otempo à pintura...Havia outras coisas que uma mulher tem de fazer...E para me dedicar a esta actividade a tempo inteiro, alguma coisa havia de falhar na minha relação com Almada...
Sarah Affonso foi considerada, no meio académico, com sendo a última discípula de Columbano. Ficou-se, muito cedo, pela disciplina e técnica do Mestre pintor do "pós-romantismo", para livremente percorrer os caminhos do Modernismo e exprimir-se numa linguagem de futuro, só comparável à dos seus contemporâneos que, dizia, "receava e temia", por não se "achar à altura" de grandes pintores como Amadeo de Sousa-Cardoso, Almada, ou Santa Ritta-Pintor. -No fundo sou muito preguiçosa -conclui Sarah -
Tenho medo das dificuldades... Para mim, pintar é muito difícil. Então, quando conhecia de perto todos esses grandes pintores do meu tempo, que foramos verdadeiros mestres de todos nós que frequentávamos a Escola de Belas Artes, mais me retraía... Digo que pintar é difícil, porque era o que eu fazia! Naturalmente, em qualquer outra profissão seria a mesma coisa. Uma mulher tem mais dificuldade que um homem. O homem aceita melhor o trabalho e o estudo do que a mulher... Falando com Sarah Affonso, por mais que queiramos direccionar a conversa acaba-se, inevitavelmente, em Almada-Negreiros, como se a vida entre eles tivesse sido qualquer coisa de interdependente e osmótica. -Conhecia o Almada -continua -de o ver na rua à tarde... Tem graça que o Zé, assim que me viu pela primeira vez na rua, foi atrás de mim. Eu ia para um concerto no São Luiz. Os concertos não eram nada de especial. Era o que havia! Gosto muito de música e, naquele tempo, em Portugal pouco mais se podia fazer. Mas, então, quando o Almada me seguiu, não lhe falei -não se falava aos homens em qualquer sítio. Era muito fechada a vida portuguesa! Do Zé haviam-me dito que "era maluco", e não lhe falei porque achei que não devia falar... Não por esta razão... mas percebi muito bem que ele queria meter conversa. Mesmo assim não lhe disse nada. Mas foi muito educado e até muito correcto.
-Como travaram conhecimento?
Assim, simplesmente. Comecei a frequentar a Brasileira do Chiado à tarde . Aí nos encontrámos e falámos.
-Quem pertencia ao vosso grupo
-Os artistas e amigos do Almada...
-Como Fernando Pessoa?
- Não. O Fernando não frequentava a Brasileira! Aparecia lá de vez em quando, faláva-nos ou da porta, ou entrava, mas não se sentava...O Raúl Leal, o Eduardo Viana, o Pacheco (José), e outros é que estavam na nossa mesa...O Fernando e o Zé eram amigos, respeitávam-se, mas era outro tipo de relacionamento.
-O Almada sempre se interessou pela minha pintura. E queria que eu pintasse.
Então porque desistiu de pintar?
-Sinto-me muito cansada e desisti de pintar. Depois que o Zé morreu, voltei a trabahar muito. Fiquei com uma obsessão de fazer desenhos, que nem sei explicar.. Sentia-me realmente doente. Mesmo assim, queria desenhar muito. Mas com o Almada vivo, não tinha disposição, não queria desenhar.... Um dia perguntaram-me "porque fazia desenhos": eu fazia desenhos como procura de uma verdade. Pintando retratos, além de ter mais trabalho e de ser mais moroso, obrigava-me a estudar muito! Ora eu nem sempre podia dedicar todo otempo à pintura...Havia outras coisas que uma mulher tem de fazer...E para me dedicar a esta actividade a tempo inteiro, alguma coisa havia de falhar na minha relação com Almada...
Sarah Affonso foi considerada, no meio académico, com sendo a última discípula de Columbano. Ficou-se, muito cedo, pela disciplina e técnica do Mestre pintor do "pós-romantismo", para livremente percorrer os caminhos do Modernismo e exprimir-se numa linguagem de futuro, só comparável à dos seus contemporâneos que, dizia, "receava e temia", por não se "achar à altura" de grandes pintores como Amadeo de Sousa-Cardoso, Almada, ou Santa Ritta-Pintor. -No fundo sou muito preguiçosa -conclui Sarah -
Tenho medo das dificuldades... Para mim, pintar é muito difícil. Então, quando conhecia de perto todos esses grandes pintores do meu tempo, que foramos verdadeiros mestres de todos nós que frequentávamos a Escola de Belas Artes, mais me retraía... Digo que pintar é difícil, porque era o que eu fazia! Naturalmente, em qualquer outra profissão seria a mesma coisa. Uma mulher tem mais dificuldade que um homem. O homem aceita melhor o trabalho e o estudo do que a mulher... Falando com Sarah Affonso, por mais que queiramos direccionar a conversa acaba-se, inevitavelmente, em Almada-Negreiros, como se a vida entre eles tivesse sido qualquer coisa de interdependente e osmótica. -Conhecia o Almada -continua -de o ver na rua à tarde... Tem graça que o Zé, assim que me viu pela primeira vez na rua, foi atrás de mim. Eu ia para um concerto no São Luiz. Os concertos não eram nada de especial. Era o que havia! Gosto muito de música e, naquele tempo, em Portugal pouco mais se podia fazer. Mas, então, quando o Almada me seguiu, não lhe falei -não se falava aos homens em qualquer sítio. Era muito fechada a vida portuguesa! Do Zé haviam-me dito que "era maluco", e não lhe falei porque achei que não devia falar... Não por esta razão... mas percebi muito bem que ele queria meter conversa. Mesmo assim não lhe disse nada. Mas foi muito educado e até muito correcto.
-Como travaram conhecimento?
Assim, simplesmente. Comecei a frequentar a Brasileira do Chiado à tarde . Aí nos encontrámos e falámos.
-Quem pertencia ao vosso grupo
-Os artistas e amigos do Almada...
-Como Fernando Pessoa?
- Não. O Fernando não frequentava a Brasileira! Aparecia lá de vez em quando, faláva-nos ou da porta, ou entrava, mas não se sentava...O Raúl Leal, o Eduardo Viana, o Pacheco (José), e outros é que estavam na nossa mesa...O Fernando e o Zé eram amigos, respeitávam-se, mas era outro tipo de relacionamento.
-E depois, casaram logo...?
-Bem, nós depois começámos a andar sempre juntos e almoçávamos na Bènard. O dono gostava muito do Zé. Um dia perguntou-lhe se pensávamos fazer boda de casamento. O Almada, pensando no assunto naquele momento, respondeu-lhe:
"Olhe disso não percebo nada! Mas parece que o meu sogro quer fazer uma festa!
E foi assim o pedido de casamento do Almada...
-E casaram, pelo registo, pela Igreja...? -Casámos pela Igreja. Foi o Almada que disse que era melhor assim. Dizia: "Sabes, já que temos de o fazer, então que seja assim, para ficar tudo arrumado e não termos problemas! Depois sempre há papéis e burocracias a tratar que se não o fizermos agora, passamos a vida inteira a resolver assuntos que ficaram para trás!"
-E casaram, pelo registo, pela Igreja...? -Casámos pela Igreja. Foi o Almada que disse que era melhor assim. Dizia: "Sabes, já que temos de o fazer, então que seja assim, para ficar tudo arrumado e não termos problemas! Depois sempre há papéis e burocracias a tratar que se não o fizermos agora, passamos a vida inteira a resolver assuntos que ficaram para trás!"
E assim foi. Casámos em São Sebastião da Pedreira em 1934, só com alguns amigos e familiares presentes.
-Como ia vestido Mestre Almada?
-Como ia vestido Mestre Almada?
-Ia vestido com o único fato que ele tinha: um fato azul escuro e gravata. Não imagina o que foi o problema da gravata!
Em conversa com ele, disse-lhe que, "para te casares tens de comprar uma gravata nova, senão andas sempre com a mesma". Ao que ele me respondeu de imediato: "Mas esta gravata veio de Espanha!
Gosto muito dela, foi um amigo que ma ofereceu". A conversa continuou e lá o convenci a comprar uma gravata que achei muito bonita! No momento de casar, o Zé tira a gravata do pescoço e veste a antiga dizendo:"Não me ajeito a fazer o nó nesta gravata.E depois não gosto das cores..." E só casámos depois de ele pôr a gravata velha!.
A vida artística de Sarah Affonso, como mulher deste século, como artista e, acima de tudo, como mulher do mestre pintor José de Almada-Negreiros, não pode dissociar-se deste, sem se correr o risco de cortar uma das duas linhas de posteridade: de Almada ou de Sarah Affonso. A História terá determinado a posteridade de Almada, adiando a de Sarah.
Sarah Afonso, em 1918 na Escola de Belas Artes
Sarah Affonso nasceu em Lisboa a 13 de Maio de 1899. Desde pequena viu a sua infância repartida pela capital e por Viana do Castelo, terra que a terá influenciado em alguns dos temas "ingenuínos" de uma fase da sua pintura.
Ainda nas Escola de Belas Artes de Lisboa, para onde entrou em 1916, a sua postura como aluna e "artífice" do desenho e da pintura, mereceu-lhe o epíteto de "última discípula" de Columbano, a partir do momento em que Sarah demonstrou, na prática, ter absorbido do Mestre o que de melhor ele imprimia nas suas obras: o desenho, a cor matizada e a luz.
Nas primeiras tentativas experimentais de pintura, a jovem Sarah é incentivada, pela crítica, a continuar os seus estudos em Paris.
Na capital francesa, numa primeira fase de 1923 a 1924, Sarah Affonso estuda na Academie de la Grande Chaumière e reside na zona de Monmarte. Contacta de perto com Chagal, Matisse e Marie Laurencin. De regresso a Portugal, em 1925, expõe em Lisboa no Salão de Outono, realizado por Eduardo Viana, onde a crítica a "agarra" como "pedra de toque" excelente. Mário Domingues escreve, em 1925, no então matutino A Capital que, "Sarah Affonso é uma artista que começa, mas que deixa entrever qualidades admiráveis. [...] A sua feminina sensibilidade abre-lhe caminho para as obras de intimismo discreto, de vaga ternura e melancolia, como demonstram os seus quadros das ruas de Paris. [...] Pena é que as suas belas qualidades tenham de aguardar que o tempo -o mais inflexível dos mestres -lhe ensine pela prática tudo o que o seu temperamento é susceptível de aprender.
Num segundo tempo, em 1928, Sarah volta a Paris, onde desenvolve uma intensa actividade como "estilista", num atelier de moda na rua de La Boéti e, concomitantemente, continua os estudos de aperfeiçoamento de pintura na Academie de la Grande Chaumière . Neste ano participa numa exposição colectiva no Salon d'Automne no Grand Palais , onde é publicamente premiada com a apresentação do quadro, As Meninas, ao lado de consagrados como, Van Dongen e Foujita.
Regressa a Portugal, em Dezembro de 1929, para assistir aos últimos momentos de sua mãe que se encontrava doente. Terá sido este acontecimento, profundamente doloroso para Sarah, que desviou decididamente a carreira desta jovem e promissora artista, com futuro certo em Paris, situação que radicalizou depois da morte da mãe, que ocorre em 1930.
Sarah ainda é galardoada em 1944, com o prémio Amadeo de Sousa-Cardozo . Deixou de pintar na década de cinquenta.
Foi, também, desenhadora, ilustradora de livros infantis, ceramista, bordadeira e tapeçarista.
Regressando a 1982, à entrevista com Sarah Affonso, numa última e derradeira pergunta, sobre a sua"interdependência" artística de Almada, responde-me: "Há uma coisa que ele não conheceu: o afecto da família, o afecto da mãe... Ele tem um poema, As Quatro Manhãs , em que diz, num rascunho, que escondia por constrangimento, este texto lindo que, penso ter ficado inédito:
"Para mim não existe passado / Quando olho para trás / Pensando na Mãe que não tive."
Quando a mãe morreu, Almada não tinha ainda três anos. E depois... ele não sabia onde tinha nascido. Não sabia nada da sua vida passada...
O que é que o Almada sabia do seu nascimento?...
Manuel Varella
gravação original efectuada
na Rua S.Filipe Nery, em Lisboa [1982]
©[registo magnético do autor]


