Sarah Afonso
Frame de um filme de M.Varella,1971
A conversa com Sarah Afonso começa mesmo antes de a entrevistar, "acho que os jovens deviam falar de Almada". Foi com esta frase que a pintora me recebeu, encaminhando-me para a sala de estar, que eu bem conhecia do tempo em que Almada era vivo. Parou um pouco apoiando-se na bengala, e disse com um sorriso triste: "parece-me mal não falarem de Almada!
Passam-se semanas, meses que não se fala do Almada. É um homem do passado..., mas ontem falou-se de Almada! Ele à noite saiu de casa e foi tirar fotografias. Uma fotografia a um retrato. E isso emocionou as pessoas porque todos julgaram que era o Almada que voltava! Vinha fazer fotografias...Afinal não era um facto, a sua morte...
Morreu e voltara tempos depois para tirar fotografias... O que é um absurdo!"
Neste quase deambular emotivo de imagens confusas do passado, como que ilustrações surrealistas de uma memória assíncrona do tempo real, Sarah Afonso fez uma curta viagem a momentos gravados num tempo de sonho, em que a sua realidade foi a presença de Almada, vivo, activo, polémico e diferente, como tudo o que protagonizou em vida.
-Há quem diga, tenha escrito, que Sarah Afonso foi prejudicada na sua vida artística por ter casado com Almada-Negreiros.
-Penso que é verdade -respondeu Sarah à minha observação -Eu sujeitei-me porque admirava muito Almada. Se fosse por outro homem qualquer, penso que não! Mas, pelo Almada, achava bem, achava natural.
Sabe, às vezes dizia eu para mim: "Bem,vou acabar este quadro". E regressava à pintura, ao trabalho de pintar. Logo a seguir desanimava! Tinha muitos desânimos.E pensava, também, que a minha carreira havia terminado!
O Almada pintava e desenhava muito bem. Uma vez, numa exposição de desenhos do Zé [José de Almada-Negreiros ] , havia um retrato meu, a lápis leve, muito bonito. O meu filho disse-me, "ó mãe, este é um retrato para a família! É tão parecido com a mãe, tão bonito, que é o nosso retrato de família!" O filho também admirava muito o pai!
Se o Almada era um grande pintor e desenhador,
para quê eu ...?
Almada-Negreiros e Sarah Afonso-1968.
©Foto M.Varella
Decididamente, Sarah Affonso não parece interessada na sua vida pessoal como artista, ou mesmo, em algumas facetas privadas do seu casamento com Mestre Almada-Negreiros.
Não está, entretanto, explicado o que levou uma mulher como Sarah Affonso a interromper, em determinado período da vida, a actividade como pintora e desenhadora, que exerceu com talento reconhecido e num tempo em que, o "reinado dos talentos" era provincianamente, exclusivo dos homens.
-Como foi o seu relacionamento com Almada-Negreiros?
-Em família dávamo-nos bem. Era muito caseiro. Não era difícil lidar-se com Almada...Falava muitas vezes sozinho, como se mais ninguém existisse. Os outros não existiam! Falava para si próprio...
-No caso particular de uma Sarah Afonso pintora, como reagia Almada?
-O Almada sempre se interessou pela minha pintura. E queria que eu pintasse.
Então porque desistiu de pintar?
-Sinto-me muito cansada e desisti de pintar.
Depois que o Zé morreu, voltei a trabahar muito. Fiquei com uma obsessão de fazer desenhos, que nem sei explicar.. Sentia-me realmente doente. Mesmo assim, queria desenhar muito.
Mas com o Almada vivo, não tinha disposição, não queria desenhar....
Um dia perguntaram-me "porque fazia desenhos": eu fazia desenhos como procura de uma verdade. Pintando retratos, além de ter mais trabalho e de ser mais moroso, obrigava-me a estudar muito! Ora eu nem sempre podia dedicar todo otempo à pintura...Havia outras coisas que uma mulher tem de fazer...E para me dedicar a esta actividade a tempo inteiro, alguma coisa havia de falhar na minha relação com Almada...
Sarah Affonso foi considerada, no meio académico, com sendo a última discípula de Columbano.
Ficou-se, muito cedo, pela disciplina e técnica do Mestre pintor do "pós-romantismo", para livremente percorrer os caminhos do Modernismo e
exprimir-se numa linguagem de futuro, só comparável à dos seus contemporâneos que, dizia, "receava e temia", por não se "achar à altura" de grandes pintores como Amadeo de Sousa-Cardoso, Almada, ou Santa Ritta-Pintor.
No fundo sou muito preguiçosa -conclui Sarah. Tenho medo das dificuldades;
para mim pintar é muito difícil. Então, quando conhecia de perto todos esses grandes pintores do meu tempo, que foramos verdadeiros mestres de todos nós que frequentávamos a Escola de Belas Artes, mais me retraía...
Digo que pintar é difícil, porque era o que eu fazia! Naturalmente, em qualquer outra profissão seria a mesma coisa.
Uma mulher tem mais dificuldade que um homem. O homem aceita melhor o trabalho e o estudo do que a mulher...
Falando com Sarah Affonso, por mais que queiramos direccionar a conversa acaba-se, inevitavelmente, em Almada-Negreiros, como se a vida entre eles tivesse sido qualquer coisa de interdependente e osmótica.
-Conhecia o Almada -continua -de o ver na rua à tarde...
Tem graça que o Zé, assim que me viu pela primeira vez na rua, foi atrás de mim. Eu ia para um concerto no São Luiz.
Os concertos não eram nada de especial. Era o que havia! Gosto muito de música e, naquele tempo, em Portugal pouco mais se podia fazer. Mas, então, quando o Almada me seguiu, não lhe falei -não se falava aos homens em qualquer sítio. Era muito fechada a vida portuguesa!
Do Zé haviam-me dito que "era maluco", e não lhe falei porque achei que não devia falar... Não por esta
razão... mas percebi muito bem que ele queria meter conversa. Mesmo assim não lhe disse nada. Mas foi muito educado e até muito correcto.
-Como travaram conhecimento?
Assim, simplesmente. Comecei a frequentar a Brasileira do Chiado à tarde . Aí nos encontrámos e falámos.
-Quem pertencia ao vosso grupo
-Os artistas e amigos do Almada...
-Como Fernando Pessoa?
- Não. O Fernando não frequentava a Brasileira! Aparecia lá de vez em quando, faláva-nos ou da porta, ou entrava, mas não se sentava...O Raul Leal, o Eduardo Viana, o Pacheco (José), e outros é que estavam na nossa mesa...O Fernando e o Zé eram amigos, respeitavam-se, mas era outro tipo de relacionamento.
1934-casamento de Sarah com Almada
-E depois, casaram logo?
-Bem, nós depois começámos a andar sempre juntos e almoçávamos na Bernard. O dono gostava muito do Zé. Um dia perguntou-lhe se pensávamos fazer boda de casamento. O Almada, pensando no assunto naquele momento, respondeu-lhe
"olhe disso não percebo nada! Mas parece que o meu sogro quer fazer uma festa!
E foi assim o pedido de casamento do Almada...
-E casaram, pelo registo, pela Igreja?
-Casámos pela Igreja. Foi o Almada que disse que era melhor assim. Dizia "sabes, já que temos de o fazer, então que seja assim, para ficar tudo arrumado e não termos problemas! Depois sempre há papéis e burocracias a tratar que se não o fizermos agora, passamos a vida inteira a resolver assuntos que ficaram para trás!"
E assim foi. Casámos em S. Sebastião da Pedreira em 1934, só com alguns amigos e familiares presentes.
-Como ia vestido Mestre Almada?
-Ia vestido com o único fato que ele tinha: um fato azul escuro e gravata. Não imagina o que foi o problema da gravata!
Em conversa com ele, disse-lhe que "para te casares tens de comprar uma gravata nova, senão andas sempre com a mesma". Ao que ele me respondeu de imediato "mas esta gravata veio de Espanha!
Gosto muito dela, foi um amigo que ma ofereceu". A conversa continuou e lá o convenci a comprar uma gravata que achei muito bonita! No momento de casar, o Zé tira a gravata do pescoço e veste a antiga dizendo "não me ajeito a fazer o nó nesta gravata. E depois não gosto das cores..." E só casámos depois de ele pôr a gravata velha!
A vida artística de Sarah Afonso, como mulher deste século, como artista e, acima de tudo, como mulher do mestre pintor José de Almada-Negreiros, não pode dissociar-se deste, sem se correr o risco de cortar uma das duas linhas de posteridade de Almada ou de Sarah Afonso.
Manuel Varella
gravação original
efectuada
na Rua S.Filipe Nery, em Lisboa [1982]
©[registo magnético do autor]
domingo, 7 de março de 2010
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